Daily Pro – Quem, de fato, matou Daniel Blake?

Quem, de fato, matou Daniel Blake?

Por Felipe Miranda & Equipe
06/04/17

Soube que há um curso de astrologia e investimentos por ai. Parece relevante. Está na Folha e tudo mais. Eu acho bom. Assim, os analistas sell side e os economistas (ao menos parte deles) encontram companhia. É o fim da solidão para os charlatões pseudocientistas. De uma coisa temos certeza: entre os astrólogos e os ternos vazios da Faria Lima ou do Leblon, sabemos que o segundo grupo não funciona.

Eu não sei se você está acompanhando – pelo seu bem, eu torço para que não -, mas há uma polêmica rondando o filme Eu, Daniel Blake. Eu acompanho o Ken Loach faz muito tempo – desde que me apaixonei pelo Kes, corro para o cinema imediatamente quando chega uma película nova do diretor inglês. É difícil encontrar paralelos para seu humanismo em outros cineastas atuais – talvez por identificação pessoal, filmes demasiadamente humanos ressonam dentro de mim com grande pulsação. O Thiago Veras, nosso RH, diz para todo mundo que vem aqui fazer entrevista: “O Felipe é excessivamente humano.” Não sei bem o que isso quer dizer, mas acho que não é bom.

Sem querer entrar muito no detalhe do filme e me esforçando (em vão, como você já percebeu) para evitar o spoiler, Daniel Blake é um idoso que acaba de enfrentar um ataque cardíaco. Ele está proibido de trabalhar por razão de saúde. Então, inicia uma perseguição inócua para conseguir seu seguro-desemprego ou uma pensão por invalidez. O sujeito entra numa espiral de ineficiência e burocracia estatal para obtenção do benefício que se vê numa situação desesperadora. Para quem busca uma imagem do problema, basta lembrar da última vez que tentou cancelar a Vivo ou a Net.

A esquerda, sempre muito rápida em chegar às conclusões (e muito devagar em capacidade de processamento), apressou-se para tirar vantagens políticas. Segundo os economistas esquerdopatas, a reforma da Previdência não poderia ser aprovada porque faria com que os brasileiros tivessem dificuldades semelhantes às daquele idoso inglês para acessar seus direitos. Laura Carvalho, também na Folha, disparou: “Exigir 25 anos de contribuição criará milhões de Daniel Blakes”.

Com a devida vênia, se fosse somente a Laura Carvalho, eu não escreveria a respeito. Se cada discordância com ela rendesse uma newsletter, teríamos uma resposta direta a cada quinta-feira. Não é o caso, definitivamente.

Ocorre que, no domingo, Samuel Pessoa, de novo na Folha (é apenas uma coincidência, eu ainda tenho o péssimo hábito de ler outros jornais), tocou no assunto, com o artigo de título “Quem matou Daniel Blake?”

Ali, ele, que é um dos melhores economistas do Brasil, escreve: “Com certeza, a tensão da perda de renda, em meio ao processo kafkiano de enfrentar a burocracia, causou o ataque cardíaco que matou Daniel Blake. (…) Para Ken Loach, a ganância capitalista e a frieza dos governos conservadores ingleses mataram Daniel Blake.”

Eu humildemente discordo dessa interpretação. Quem matou Daniel Blake foi o excesso de burocracia e ineficiência do setor público. E esses problemas são tipicamente criticados pela turma da direita liberal, e não pela esquerda, que quer um Estado grande, não necessariamente apegado à meritocracia e à eficiência. Um “choque de gestão”, tão defendido pelos ditos conservadores, teria rendido um futuro bem diferente a nosso protagonista.

Do ponto de vista filosófico e hermenêutico, Daniel Blake tinha óbvio direito à pensão – ele simplesmente caiu num limbo de burocracia e ineficiência estatal, coisas que tipicamente contrariam os preceitos liberais (associados à direita).

A esquerda, obviamente, tenta, com o oportunismo de sempre, se aproveitar do filme, mas esbarra num erro de entendimento. “Olha lá o abandono dos pobres velhinhos, esses tão merecedores da Previdência…”

A defesa de um Estado enxuto, eficiente e meritocrático nada tem a ver com “a frieza e a injustiça próprias do sistema capitalista e de governos conservadores.” Ao contrário, ela é a melhor forma de garantir o bem-estar social, através da melhora da produtividade e da concessão de benefícios apoiada nos pilares da equidade vertical e horizontal.

O problema aqui é de percepção. O Estado liberal promove o bem-estar geral pela via indireta – ela não concede privilégios a ninguém. Garantimos a igualdade de oportunidade e o direito de propriedade, obedecemos às sinalizações do sistema de preços, respeitamos os contratos e criamos, como Estado, um arcabouço ético e moral para fomentar tudo isso na iniciativa privada. O fato de não haver tetas para se mamar diretamente é confundido com o sacrifício do bezerro. Na realidade, a única forma desse filho se desenvolver é justamente desmamá-lo.

Não é porque você não recebe diretamente uma bolsa que o Estado não o apoia. Numa sociedade liberal, esse apoio vem por vias implícitas e indiretas, garantidas pela igualdade de oportunidade. Isso passa, necessariamente, pelo combate à burocracia e à ineficiência estatal. Se essa cruzada tivesse sido vitoriosa em New Castle, Daniel Blake ainda estaria vivo. Quem sabe poderíamos assistir a um filme com sua continuação. Seria um deleite para quem torce apaixonadamente para que Ken Loach não se aposente.

A discussão em torno da reforma da Previdência voltou a preocupar o mercado mais fortemente. O tal placar do Estadão, já famoso por sua cobertura do impeachment, apontou uma situação difícil para passar as novas regras previdenciárias. Foi um susto. Bolsa caiu, juros subiram com vigor depois de muito tempo e dólar avançou contra o real.

Ok, reconheço a necessidade da ponderação. Em paralelo a isso, tivemos a divulgação da minuta da última reunião do Fed, com tom um pouco mais duro sobre o futuro da política monetária nos EUA e com a discussão explícita sobre a necessidade de diminuição do balanço do Banco Central norte-americano. Assim, a associação direta entre o aumento da aversão a risco visto na tarde de ontem e o placar do Estadão encontra o risco de incorrermos na falácia post hoc, propter hoc (depois disso, por conta disso).

Ao que parece, porém, ela teve sua influência, de fato. Mantenho, ao menos por enquanto, minha visão de que a reforma será aprovada. Talvez não seja a reforma ideal – por definição, a reforma ideal pertence ao mundo das ideias. Teremos a reforma possível e será suficiente para garantir valorização adicional para ativos brasileiros.

Isso não significa ausência de dificuldades e volatilidade. Ao contrário, haverá vários momentos em que pensaremos: “ferrou, não vai dar.” É da natureza do processo. Precisamos nos manter firmes na convicção, sem, claro, desandarmos para a teimosia. Os primeiros macacos a caírem do galho são aqueles de mão fraca.

Precisamos nos lembrar: este é apenas o início das negociações. Muita coisa acontece até a votação em si. E também se trata da reforma tal como apresentada hoje, sem as flexibilizações exigidas por boa parte da base aliada.

Pondero ainda que essa preocupação toda (“ai, não vai dar”) é positiva para dar foco nas negociações e não se baixar a guarda. O problema maior seria o contrário: a ausência de volatilidade e uma surpresa lá na frente. Com a ciência das adversidades, podemos negociar e ajustar a rota. De novo: não será a reforma dos sonhos. Nunca é. O Brasil nunca abandonará seu viés macunaímico e seu gosto pelos privilégios individuais. Isso nos impede de ser uma grande potência. Ao mesmo tempo, não temos vocação para explodir. Para que os parasitas continuem mamando no hospedeiro, este último precisa estar vivo. Não temos vocação para explodir. E sem a Previdência, o País explode.

Após o tombo da véspera, mercados locais tentam estabilização. O comportamento é semelhante no exterior, sem novos catalisadores.

Há grande expectativa por reunião entre Donald Trump e Xi Jinping, com seus possíveis abalos sobre as relações comerciais de ambos – sinceramente, vejo muita retórica e pouco efeito prático. Eles se matariam reciprocamente.

Agenda nos EUA ainda tem pedidos de auxílio-desemprego e cortes de vagas planejados. Internamente, IGP-DI apontou deflação de 0,38%, contra prognóstico de estabilidade. Saem também dados da Anfavea e da captação da poupança.

Ibovespa Futuro tem leve baixa de 0,09 por cento, dólar cai 0,1 por cento contra o real e juros futuros estão perto da estabilidade.

Em retribuição genuína ao engajamento dos assinantes, que responderam à nossa pesquisa na sexta-feira em tempo recorde (inclusive surpreendendo o próprio Instituto de pesquisa), hoje fizemos uma promoção mais do que especial. Vale a pena passar os olhos.

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Juros reage à reforma da previdência

O placar desastroso da reforma da previdência, publicado ontem pelo Estadão, foi motivo para os juros subirem 10 pontos base no fechamento.

Os piores movimentos foram nos prefixados longos, que são os primeiros a subirem o prêmio de risco quando o mercado tem medo.

Esse é um pequeno exemplo do que aconteceria se a reforma não passasse de fato. Preocupado, o governo tratou de colocar todos os ministros e secretários para amenizar o placar, dizendo que ele é inicial e vai mudar.

O mercado não vai gostar disso, e os prêmios subirão mesmo. Ao mesmo tempo, os dados de atividade e inflação estão vindo muito fracos, o que advoga por um ciclo maior de corte de juros.

Estamos caminhando em uma linha tênue, onde o paraíso está logo à frente, e o abismo logo embaixo.

Eletrobrás/Light/Eletropaulo: Enel reitera interesse em distribuidoras brasileiras

Do mesmo jeito que vem fazendo desde 2012, o CEO da italiana Enel reiterou mais uma vez em Nova Iorque a intenção de se expandir em distribuição no Brasil através de aquisições.

O plano de longo prazo da empresa é transformar-se no primeiro ou segundo ator no segmento no país. Para isso, precisa aumentar a escala rapidamente, acima dos 10 milhões de consumidores atuais. Neste sentido, considera como atrativas as seis companhias que deveriam ser vendidas por Eletrobrás (ELET6) no 4T17. Com 4,3 milhões de consumidores nas regiões do norte e nordeste, ele explicou que, como sempre, preferirão aquelas que façam mais sentido geograficamente em relação a ativos já presentes na carteira.

Desta maneira, quando consultado por Eletropaulo (ELPL4), ele confirmou a atratividade da empresa (por tamanho e localização, o que é sabido para todo o mercado), mas também explicou que, dado que até agora há apenas ações implícitas da controladora norte-americana AES Corp, privilegiarão oportunidades concretas de vendas.

Consideramos que a notícia é novamente negativa para Eletropaulo (ELPL4), já que tira força do principal argumento de quem está positivo no papel desde pelo menos 2014, que é a possibilidade de M&A. Se Enel não estiver informado de um interesse de venda, então quem estará? O problema não é falta de atratividade estratégica, mas a existência de significativas contingências dentro e fora do balanço. Eis aqui um dos nossos argumentos para nossa posição short no papel no Serious Trader .

No que se refere a Light (LIGT3), apesar de não ter sido mencionada diretamente, o interesse de expansão procurando sinergias geográficas pode ser entendido marginalmente como positivo, uma vez que eles contam com Ampla, justo ao lado.

Para Eletrobrás a notícia nos parece neutra. Por um lado, é bom que haja interessados nos ativos deficitários; mas, por outro, é negativo que o processo de venda esteja demorando bem mais do que o esperado (já tem acumulado pelo menos dois anos de atraso).

Educação: Kroton reforça jogadores de defesa para ganhar o jogo

As ações da Kroton chegaram a subir mais de 3 por cento no pregão de ontem, mas acabou reduzindo os ganhos com a reversão do mercado após divulgação de pesquisa sobre o número de deputados contra a reforma da Previdência.

O bom humor dos investidores com o grupo educacional foi devido à notícia da contratação do ex-ministro da Justiça, Jose Eduardo Cardozo, que hoje trabalha como sócio no escritório de advocacia CM Advogados.

Esperta, Kroton vai aproveitar o prestígio e bom relacionamento do ex-ministro junto aos conselheiros do CADE para acelerar o processo de aprovação. Para reforçar ainda mais o esquadrão de defesa, a companhia vai contratar um economista renomado para emitir um parecer financeiro que respalde a fusão e que possa atender às exigências da relatora do CADE, Cristiane Alckmin, que costuma focar nos impactos financeiros das operações.

Gostamos deste movimento da Kroton que se mostra decidida em acelerar este processo desgastante de aprovação da fusão, que deve ter um ponto final até julho.

Continuamos trabalhando com o cenário de que a fusão seja aprovada mediante a venda de ativos de EAD e de alguns campus em cidades onde há sobreposição de operações das duas empresas.

Mantemos nossa visão positiva para KROT3, recomendada na série Melhores Ações da Bolsa, e ESTC3, presente na Carteira Empiricus, Insider e Vacas Leiteiras.

B2W: a meta é gerar caixa

Vemos como a Amazon está infernizando a vida das varejistas tradicionais nos EUA.

O online vem dominando o mercado por lá e a Amazon já trabalha na forma como os produtos são concebidos, empacotados e vendidos. O online tem necessidades de transporte e apresentação diferenciados.

No Brasil, observando o poderio da Amazon, as varejistas online correm contra o relógio antes que o Lobo mau assopre por aqui.

As barreiras de entrada no setor parecem pequenas e B2W (BTOW), procurou erguer um fosso de proteção (Moat) utilizando a péssima estrutura logística brasileira a seu favor.

A companhia passou por um ciclo de investimentos altíssimo para montar sua própria distribuição. Comprou empresas de logística, montou CDs, investiu em de tecnologia, …

Os investimentos vultuosos e diversas injeções de capital, chegou a hora do negócio começar a gerar caixa.

A logística própria (menos custosa que a competição) ajudaria a B2W a angariar clientes e a deslanchar seu e-commerce e seu marketplace.

Todo o mercado quer a mesma coisa, mas B2W aposta que sua plataforma de tecnologia e sua, recém montada, logística tragam o vendedor para seu marketplace.

Estamos atentos ao desenrolar desta história e, nas Melhores Ações da Bolsa , apostamos em sua controladora Lojas Americanas (LAME4), para capturar a nova fase da varejista online.

Frigoríficos: independente dos motivos, cenário incentiva ajuste de oferta

Notícia do Valor comenta sobre redução da produção da Marfrig (MRFG3) diante de acúmulo de estoque em meio à operação Carne Fraca.

Depois do anúncio de suspensão temporária e redução da produção de carne bovina em algumas unidades no Brasil da JBS (JBSS3), feito há cerca de duas semana (e devidamente comentado aqui no Daily), notamos que suas concorrentes Marfrig e Minerva (BEEF3) também optaram pela redução na produção.

A Marfrig deu férias coletivas de dez dias para os funcionários do segundo turno de abates do frigorífico localizado em Tangará da Serra/MT, segundo a imprensa. Isso implica em uma redução de cerca de 30% nos abates diários da planta.

Em paralelo, a Minerva decidiu paralisar por vinte dias o frigorífico localizado em Várzea Grande/MT e deu férias coletivas de vinte dias aos seus funcionários. Em conversa com a empresa, o time de Relações com Investidores justificou a parada não programada da planta como necessária para manutenção.

De modo geral, as recentes notícias que dizem respeito ao corte de produção são negativas no que tangem a redução da taxa de utilização da capacidade instalada das companhias do setor de frigoríficos.

No entanto, independente dos motivos sensíveis a cada companhia, a redução na oferta poderá ser positiva para o setor nesse momento de incertezas no que tange a sustentabilidade da demanda por carne brasileira no curto prazo.

O fluxo de notícias em torno da deflagração da operação Carne Fraca segue gerando volatilidade para os papéis. Seguiremos monitorando o tema de perto.

JBSS3 segue firme na subcarteira Condor (para assinantes com alto apetite por risco) dentro do produto Empiricus Insider. Enquanto isso, mantemos nossa postura neutra em MRFG3 e BEEF3.

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