Daily Pro – Previdência ou morte

Previdência ou morte

Por Felipe Miranda & Equipe
10/04/17

Mamãe odiava Bolsa. Depois de tudo que aconteceu, não tinha outro jeito. As mazelas da falência financeira familiar solapavam qualquer possibilidade de perdão, mesmo para quem fora treinada na disciplina católica do confessionário.

Papai era o contrário. Ele amava aquilo. Era um apaixonado, no sentido etimológico da coisa. Paixão vem de pathos, patologia, doença. Com Kierkegaard, aprendi que a paixão retira qualquer condição favorável ou confortável para tomar decisões e agir, restando ao apaixonado apenas padecer, sofrer e vivenciar aquilo.

Eu media os prejuízos dos seus trades pela extensão dos tragos que dava em seus cigarros. Ele saia do quarto onde estava instalada sua estação de trabalho, aparelhada com terminal Enfoque e internet discada, e vinha para a sala. Eu podia observá-lo de minha escrivaninha. Um olho nos polinômios e outro naquela figura angustiada.

Ele parecia ter uma habilidade especial, possuído por uma entidade metafísica. Era uma espécie de Billy, The Kid para acender o bagulho. Não fumava no quarto. Dizia que era por ética e por hábito. Acho que era só medo de minha mãe mesmo. Vinha batendo os sapatos lá de dentro, chegava à mesa de canto da sala de estar, onde repousavam sempre dois maços de Galaxy, segurava o isqueiro com a mão direita, enquanto capturava um dos maços com a esquerda, batia com a ponta do polegar na tampa daquela caixinha retangular e puxava o pito com os lábios dobrados para dentro da boca. Acendia o careta e introjetava fumaça para dentro dos pulmões com força, transmitindo uma sensação de profundo alívio. A nicotina entrava em suas veias dissipando o cortisol.

Eu tinha um algoritmo para medir aquilo. Se levava dez tragos para um cigarro, era um prejuízo de mil reais por trade. Cinco tragos representavam menos três mil reais na conta – fui treinado cedo nas não linearidades. Naquele dia, e essa é a minha verdade, vi a impressionante marca de um trago/um cigarro. Quebramos.

Obviamente, não era apenas o resultado de uma operação ruim com Tele Norte Celular. A destruição do patrimônio familiar é como um acidente aéreo: uma sucessão de erros. Tradicionalmente, são sete equívocos em série pelo menos. Aquela terça-feira foi somente o estopim do processo. Dali em diante, muita coisa mudou. Nunca mais vi meu pai sorrindo livremente. Sua autoestima sofria como uma cota de um fundo de investimento, era marcada a mercado impiedosamente.

Ele sabia muito bem o que era a montanha-russa da vida de um trader alavancado. Tinha vivido intensamente a brincadeira séria de “fica rico, fica pobre” várias vezes ao longo da vida. Mas aquela vez não tinha volta.

O processo de acúmulo de riqueza sofre de histerese. Depois que você passa de um determinado ponto, não tem retorno. Já era. Game over.

Lembro daquele dia com um mistura sinestésica entre tristeza e orgulho. O que não mata, fortalece. Aquilo forjou meu caráter. Foi uma espécie de MBA acelerado, aos 15 anos de idade. Tirei lições estruturais daquele jogo de sete erros, coisas de que jamais jamais me esquecerei e sem as quais possivelmente não estaria aqui:

1 – Nunca se alavanque em Bolsa. Termo, empréstimo, venda descoberta são palavras proibidas para o investidor de ações. Basta errar uma vez para ter um ferimento bastante profundo;

2 – Esqueça a dica esperta, aquela que somente você (ou seu fórum favorito ou seu agente autônomo) conhece. Tec Toy não será vendida para os chineses, ok?;

3 – Telecom no Brasil nunca funcionou. A tentação de achar que desta vez é diferente sempre vem nos procurar. Pessoas, empresas e setores mudam menos sua essência do que eu gostaria de acreditar;

4 – Invista sempre um valor que lhe permita continuar no jogo, independentemente do quão ruim as coisas podem ficar – normalmente, elas ficam ainda piores;

5 – Os mercados podem se manter irracionais por mais tempo que você pode se manter ilíquido;

6 – Não entra nas conversas de “tal setor agora é a bola da vez”. Já foi telecom, commodity, incorporadora de baixa renda, educacionais e, mais recentemente, saneamento (vi gestores se orgulhando: “tenho as três do segmento” – foram o sucesso de 2016, entregaram tudo agora).

7 – Lembre-se que Bolsa representa a possibilidade de se comprar a menor fração do capital de uma empresa, que é a ação. Portanto, está conectada aos ciclos de negócios dessas companhias, que obedecem ao horizonte temporal da economia real. O trading está sujeito fortemente às imposições da caminhada aleatória do curto prazo. Cada trade é uma corretagem. custo para você, receita para a corretora.

Resumidamente, você pode – e deve – correr altos riscos para incrementar seus retornos. Esse risco, porém, deve estar devidamente dimensionado. O dinheiro da Bolsa é aquele que você topa perder, não depende a curto prazo e exige diversificação – erre pequeno, acerte grande. Tenha a maior parte de sua carteira em ações de empresas consagradas. Lucro, lucro e lucro (bottom line mesmo) em várias circunstâncias de mercado. A maior parte dos sapos que você vai beijar esperando virar príncipes são somente sapos.

Não se esqueça também que o sapo não pula por boniteza, mas por precisão. A segunda-feira começa com foco total na questão da Previdência. O presidente Michel Temer teria assumido para si as negociações para aprovação da reforma. Eu confio nas novas regras previdenciárias por uma única razão: não há outro caminho. Previdência ou morte.

Se não aprovarmos a mudança, a trajetória da dívida pública brasileira se torna insustentável até que… kabum! Vamos para o default, seja ele em sua via direta ou pelo calote disfarçado, pela via da inflação – claro, há também a alternativa de levarmos a carga tributária para um múltiplo do PIB.

O teto de gastos depende necessariamente da nova previdência para funcionar – caso contrário, ela roubará para si integralmente o orçamento. O Brasil vira um grande balcão previdenciário. Não há possibilidade para tanto, principalmente porque isso deixaria um cenário de terra completamente arrasada para 2018, o que não parece do interesse dos parlamentares, ávidos por ter algum acesso ao orçamento.

Deixe-me corrigir: não acredito na aprovação da reforma da Previdência. Creio na aprovação de uma reforma da Previdência, aquela possível, capaz de agradar o mercado na margem, sem euforia. E, então, vamos para uma nova reforma, talvez em 2019 ou 2020, e vamos assim, de pouco em pouco, evitando a catástrofe e continuando com a nossa típica complacência macunaímica.

Mercados iniciam pregão em clima predominantemente favorável. Ibovespa Futuro sobe 0,7%, com tentativa de recuperação da força política do Planalto e com ligeira alta dos futuros de Wall Street. Sinais de controle da inflação (IGP-M apontou deflação muito superior ao esperado) e nova revisão para baixo nas estimativas para Selic (mais sobre isso abaixo, na nota da Marília) ajudam no clima positivo. Juros futuros recuam e dólar registra queda contra o real.

Dia tem agenda pouco relevante nos EUA. FMI solta relatório com projeções macro e OCDE apresenta indicadores antecedentes.

“PS: Recomendo fortemente que você se cadastre para participar do webinar In$ideCap Live. O evento ocorrerá em poucos dias, mas as inscrições encerram-se hoje.

Max Bohm e Carlos Herrera irão revelar uma estratégia de investimento com potencial para fazer você lucrar 100.000 reais na Bolsa.

Os inscritos já são muitos, e como iremos oferecer uma surpresa especial para todos que assistirem a transmissão, o número de vagas é limitado.

Acesse este link para se inscrever agora mesmo.”

Felipe Miranda
Analista CNPI
palavra@empiricus.com.br

o Focus não para

O Focus segue caindo, como se não houvesse chão. Expectativa de inflação para 2017 caiu de 4,10 para 4,09 por cento. Para 2018, pasmem, caiu de 4,5 para 4,46, ficando abaixo da meta de inflação pela primeira vez!

Mas não parou por aí, o PIB para 2017 também se reduziu de 0,47 para 0,41 por cento, refletindo assim os dados piores de atividade divulgados recentemente.

Isso aconteceu mesmo com o BC avisando que vai acelerar o passo do corte da Selic para 100 bps. Ou seja, o mercado está avisando de volta que acha que é pra acelerar mesmo e que tem muito espaço pra cair.

A queda nas expectativas não é só desejável, é crucial para que a inflação corrente caia. No modelos utilizados pelo Relatório de Inflação, o impacto de uma queda nas expectativas é altamente relevante para a convergência.

No comunicado do Copom de quarta-feira, teremos provavelmente a revisão do modelo com as novas expectativas. Apesar do resultado do Copom já ser amplamente esperado, esse comunicado vai dar o tom do mercado no dia seguinte.

Marília Fontes
Analista CNPI

Cemig/Light/Eletrobrás: Eventual venda de Belo Monte seria positivo para ambos papéis

Reuters noticia que a chinesa ZEPC (Zhejian Electric Power Construction Co.) estaria negociando a compra da usina hidrelétrica de Belo Monte (11.233 MW de capacidade) junto com o consórcio controlador Norte Energia, que é composto por Eletrobrás (ELET6), Cemig (CMIG4) e Light (LIGT3), Neoenergia, Vale (VALE5) e os fundos de pensão Petros e Funcef.

De acordo com o informado nos últimos meses, vários acionistas da usina estão interessados em sair, principalmente, porque estão em necessidade de desalavancar e voltar ao foco de cada um deles. Sabidamente, dois deles são Cemig (CMIG4) e Light (LIGT3).

Contudo, é importante ressaltar que, caso for certo que a compradora será ZEPC, o espaço para recuperar o investimento será limitado, uma vez que a capitalização de mercado da chinesa é de aproximadamente 35 bilhões de reais, versus os 32 bilhões de reais investidos até agora.

Devido aos constantes problemas (necessidade de capital adicional, aumento de endividamento, licenças ambientais atrasadas, etc.), que têm limitado significativamente a rentabilidade do projeto, uma saída seria muito bem vista pelo mercado, independente do múltiplo. Portanto, acreditamos que isto deveria afetar positivamente hoje os papéis envolvidos: Cemig (CMIG4), Light (LIGT3) e Eletrobrás (ELET6).

De qualquer jeito, nossos favoritos são CMIG4 e LIGT3. O primeiro, o nosso top pick do Empiricus Insider ; e o segundo, presente nas Vacas Leiteiras .

Carlos Herrera
Analista CNPI

Klein quer a VVAR de volta

Reportagem da Isto É comenta como Michael Klein tem interesse real na compra da maioria das ações de Via Varejo (VVAR11).

O ex-controlador das Casas Bahia, que se fundiu com o Pão de Açúcar (PCAR4) para formar a VVAR, estaria apenas procurando parceria com fundos de investimento para colocar sua oferta na mesa.

Como os minoritários tem direito a tag along – devem receber oferta igual por suas ações – Klein precisa fazer uma oferta pela totalidade das ações que não possui. O executivo possui pouco mais de 27 por cento das ações de VVAR.

Ao ser comunicado do interesse de Klein (e o desinteresse de outros possíveis investidores) o Casino, controlador da VVAR, decidiu estender o prazo para receber ofertas.

Com resultados ainda fracos e reportando prejuízo em 2016, o maior problema de VVAR é unir o e-commerce com as lojas físicas – apesar de ser a maior do setor, a companhia mantinha as operações completamente separadas.

As ações caíram ao redor de 15 por cento das máximas, mas ainda negociam a múltiplos elevados. Retirando as receitas não recorrentes do balanço, VVAR não parece uma pechincha – longe disso. Continuamos recomendando distância das ações.

Bruce Barbosa
Analista CNPI

BRF: a unidade de Mineiros voltou, mas seguimos fora do papel

A BRF (BRFS3) recebeu autorização para reativar sua planta localizada em Mineiros/GO, que processa carne de frango e peru, e deverá reiniciar suas operações nos próximos dias.

A noticia é positiva para a companhia. Ainda que a planta represente menos de 5 por cento da produção da companhia, marca a volta de volume que havia sido desativado em razão da deflagração da operação Carne Fraca. Aos poucos, o setor deverá voltar a operar com normalidade.

BRF está negociada a 8,5x EV/EBITDA projetado para 2017. É um caso descontado, de uma empresa boa, com marcas reconhecidas e excelente canal de distribuição, passando por um mau momento em Bolsa por conta de resultados ruins de curto prazo e que, recentemente, tem convivido com as investigações da PF.

Ainda que gostemos da empresa, preferimos esperar reflexos mais concretos das decisões de seus gestores em relação ao futuro da companhia. Estamos fora de BRFS3.

Ariane Gil
Analista CNPI

PDG: Mais um capítulo.

Desde de fevereiro a incorporadora PDG Realty (PDGR3) está em RJ e o prazo – até maio – para apresentar o plano de reestruturação se aproxima.

Com 30 empreendimentos em andamento e 20 mil consumidores afetados a companhia não mostra nenhum plano de ação transformacional.

Alem de trabalhar na venda dos seus terrenos e apartamentos prontos e empresa está em renegociação da sua dívida com os credores.

Importante terminar o que começou, afinal, 1 bilhão da dívida vem dos processos judiciais de seus clientes.

Preferimos ficar de fora das ações da PDG, dada a complexidade da situação.

Felipe Miranda
Analista CNPI
palavra@empiricus.com.br

Calendário IPOs

O IPO de Azul (AZUL4) vai dar o que falar, mas não necessariamente pelas qualidades do negocio.

A CVM foi bastante criticada por suspender o IPO após um site estrangeiro divulgar um vídeo do roadshow (apresentação para investidores institucionais) com projeções e expectativas que não constavam no prospecto.

Suspenso na quinta, a CVM voltou atrás na sexta, comentando que a companhia havia ajustado suas informações.

A demanda, antes da suspensão, para o preço médio da faixa (21 reais) já estava duas vezes maior que o volume ofertado pela companhia.

A AZUL fixa o preço hoje (10/04) e as ações começam a ser negociadas amanhã (11/04).

Com a suspensão, aqueles que fizeram a reserva podem optar por desistir da entre os dias 10/04 e 13/04. Para isso, devem entrar em contato com a corretora.

Continuamos recomendando ficar de fora da oferta. E divulgamos um documento completo analisando o IPO no último dia 31 – o qual todos os assinantes tem acesso.

 

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