Em Defesa da Especulação

Por Felipe Miranda & Equipe

Antes de batizá-la “Day 1”, eu queria ter chamado esta newsletter de “O Especulador”. Confesso: era uma tentativa de imitar a homófona “The Spectator”, do Rory Sutherland, de que gosto muito. Mas também representava um esforço de chamar a atenção para aquilo que entendo ser o que realmente interessa na análise: o valor das ideias, e não das planilhas.

Não me deixaram. A turma aqui anda meio pudica demais, roda presa. Só vejo sacerdotes por essas bandas.

Eu os entendo. Se alguns acham que somos corretora enquanto outros não compreendem que não pertencemos ao arcabouço estrito dos valores mobiliários, sendo, em verdade, apenas um publisher, ou seja, uma empresa de comunicação, talvez fosse mesmo imprudente adotar uma expressão – apenas aparentemente – politicamente incorreta. Todo mundo é a favor da liberdade de expressão, estampa camiseta “Je Suis Charlie”, contanto, claro, que seja a mesma expressão que a sua. O Rafinha Bastos produziu um texto fantástico sobre isso.

Explico o ponto específico em prol da especulação. Desafiando a noção imagética do Gordon Gekko, o especulador, etimologicamente, nada tem a ver com a figura que negocia ações e títulos de maneira frenética, se alavanca fortemente, lucra com “insider trading” e come criancinha.

A origem da palavra remete ao latim “speculatio”, ligada à observação, contemplação. Pra mim, um bom investidor é aquele que especula sobre o futuro, no sentido de que faz elucubrações, pondera possibilidades, enxerga o que os outros não viram, desenha cenários meramente potenciais e encontra assimetrias vantajosas para sua matriz de payoff.

Nesse sentido, o especulador está em posição ontológica superior inclusive ao investidor. Na definição clássica de Aswath Damodaran, que serve para nossos fins aqui, investir é o ato de comprar algo por menos do que efetivamente vale.

Sendo rigoroso com as definições, qual o problema com o investidor?

Precisamos saber exatamente quanto vale o objeto em que se investiu. Então, recorremos a John Burr Williams, aquele que trouxe a formalização seminal para a coisa: um ativo vale a soma dos seus fluxos de caixa de hoje até o infinito, trazidos a valor presente por uma taxa de desconto apropriada.

O problema para a tal determinação do valor é que os fluxos de caixa futuros estão…hmmmm… no futuro! E o futuro a Deus pertence. Nós simplesmente não sabemos. O amanhã continuará opaco, impermeável, impenetrável. Ou seja, normalmente, não conseguimos determinar com precisão minimamente razoável o valor de alguma coisa, porque não sabemos nada sobre o futuro. E sem a precisa caracterização de valor, o ato de investir fica impossibilitado. Recorrendo à definição estrita do Damodaran, o investidor sequer pode existir.

Reconheço, sim, que há situações de maior previsibilidade, de empresas com fluxos estáveis, receita contratada, blá, blá, blá. Também sei que em determinadas situações podemos usar nosso círculo de competências para tentar ver o futuro melhor do que os outros. Mas, embora eu tenha a mais absoluta certeza de que você é muito inteligente (eu acredito mesmo!), há pelo menos outras 10 mil pessoas igualmente inteligentes por aí. Então, se você consegue alguma antevisão do futuro, um montão de gente por aí também o faz. Logo, não temos muita vantagem.

Quando John Burr Williams formalizou o modelo de fluxo de caixa descontado, ou mesmo nos ensinamentos de Benjamin Graham de que tínhamos de comprar ações muito abaixo do valor dos ativos e/ou dos lucros passados daquelas empresas, fazia todo sentido. Aquilo era realmente um diferencial. Ninguém aplicava o método, ninguém tinha informação de nada.

Hoje, é o contrário. Todo mundo sabe de tudo, sabe fazer conta, lê pra caramba, conversa com muita gente.

Todos estão perfeitamente cientes da informação disponível. E é ela que forma os preços hoje.

Ora, mas então pensa o seguinte: se os preços de hoje são formados a partir da informação disponível, a movimentação das ações e dos títulos até amanhã (aquilo que fará você ganhar dinheiro) depende da informação que vai chegar entre hoje e amanhã. Ou seja, um dado ainda indisponível hoje.

Logo, o que realmente importa para o preço dos ativos não é a informação disponível, mas, sim, a indisponível. Num cenário como esse, somente os especuladores podem ter alguma vantagem, pois são eles que especulam sobre o futuro, tratam do que ainda não é, mas do que pode vir a ser.

O argumento foi encomendado para a atual conjuntura. Estamos, pra mim, num momento muito semelhante ao vivido no segundo semestre de 2015. À época, flertávamos com o abismo — sim, a expressão estava correta. A caminhada fiscal era explosiva, e a eclosão era iminente. Obviamente, ninguém queria saber de Bolsa e juros longos à época. Ninguém via a saída para a crise e, portanto, todos concluíam que não havia saída para a crise.

Pouco tempo depois, observamos a uma costura política para o impeachment da presidente Dilma e uma tendência de alta vigorosa para os ativos de risco brasileiros, como há muito tempo não se via.

Confundimos ausência de evidência com evidência de ausência. Essa é mesmo uma tendência humana, sintetizada no tal WYSIATI de Daniel Kahneman – What You See Is All That Is, o que você vê é tudo que existe. Valorizamos excessivamente a informação disponível, negligenciamos a indisponível e pulamos direto para as conclusões.

Todos sabem como a coisa pode ficar feia. Mas o fato de não conseguirmos saber exatamente qual será a saída para a crise política não significa que não exista saída para a crise política. Há menos de dois anos, vemos a coisa acontecer rigorosamente assim. Não podemos ter memória tão curta.

Quando ninguém mais vê saída, ela emerge, simplesmente porque o completo desalento empurra o Brasil de novo para sua mediocridade. Com nossa verve macunaímica, toda ode pela Semana de Arte Moderna de 1922, o Manifesto Antropofágico, o Tropicalismo, etc. Temos vocação para a complacência, mas não para virar uma Venezuela.

Por enquanto, continuamos sem desanuviar a cena política. Aprovação de urgência para reforma trabalhista, a ser votada no plenário na próxima semana, com grande folga é vista com bons olhos. Em contrapartida, nomeação de Sergio Zveiter como relator da denúncia contra Temer na CCJ impõe desconfiança sobre evolução do processo – com sua proximidade a Rodrigo Maia, alguns ponderam até onde vai o apoio ao governo e seu suposto perfil estritamente técnico.

Agenda econômica estrita traz poucas referências de peso, sendo representada formalmente apenas por fluxo cambial semanal. Chamo atenção para a boa coluna de Cristiano Romero no “Valor”, que aponta para maior agressividade do Banco Central no corte da Selic. Ele tem muita interlocução com a atual equipe econômica e a ênfase com que escreveu o argumento pode ser indicador importante sobre os passos da autoridade monetária – o que pode se traduzir em lucros para seu bolso, claro, dado o mercado dividido hoje entre um corte de 75 ou 100 pontos na Selic.

No exterior, clima é de certa cautela, com Bolsas alternando altas e baixas. Tensão na Coreia do Norte após lançamento de míssil de longo alcance impõe aversão a risco, enquanto mercado aguarda divulgação da ata do Fed. Encomendas à indústria e índice de condições empresariais completam a agenda norte-americana.

Commodities registram baixa, com destaque para o petróleo, após Rússia não concordar com corte mais proeminente na produção. Comportamento das matérias-primas impõe alguma pressão sobre moedas emergentes, que perdem contra o dólar nesta manhã – real compartilha a tendência.

Ibovespa Futuro começa perto do zero a zero e juros futuros buscam definir tendência.

PS: Lançamento do  INS  ontem foi um grande sucesso. Temos algumas poucas vagas restantes para o projeto, que tem como objetivo levá-lo a um outro patamar como investidor, associando um método crível com sugestões imediatas para aplicar seu dinheiro de forma mais rentável.

Governo fazendo campanha por Selic menor?

Em reportagem de Cristiano Romero, conhecido por ter uma fonte importante dentro do governo, um “integrante da equipe econômica” afirma que “com a inflação derretendo, ele [BC] vai agir como deve”.

Será essa uma leve pressãozinha para o BC cortar a Selic em 100 bps?

Nesta sexta-feira teremos a divulgação do IPCA de junho. O mercado espera uma queda de 0,18 por cento, enquanto o BC espera uma queda de apenas 0,10.

Seria essa peça que faltava para eles mudarem o discurso? Essa, pelo menos, é a teoria de grande parte do mercado.

O que ele realmente vai fazer, a gente nunca sabe. Mas que ele tem pleno espaço para cair 100 bps, isso temos certeza.

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